O post vai um pouco atrasado já que o trabalho não me tem deixado com muito tempo de sobra, mas enfim, aqui vai minha narrativa dos dias em que passei em Jerusalém. A cidade fica a menos de 1 hora do aeroporto Ben Gurion em Tel Aviv (cidade que infelizmente não tive oportunidade de conhecer) através de uma rodovia bem sinuosa. Jerusalém encontra-se em uma região montanhosa, portanto o clima é mais agradável do que nas demais partes do país.
A descrição desse post basicamente resume-se a um dia e meio que passei conhecendo a cidade, já que o restante da semana passei dentro do escritório da empresa. Utilizando o fuso-horário a favor (GMT+2) enquanto aqui é (GMT-5) me deram 7 horas de liberdade na sexta-feira onde não se trabalha de acordo com a cultura Judaica.

Pode-se entrar na cidade velha por diversos portões construídos em diversos séculos de acordo com o crescimento da antiga cidade de Jerusalém. O "Jeffa Gate"parece ser o mais acessível, pois encontra-se em uma avenida bem movimentada e do lado opo

sto aos templos Judaicos e Muçulmanos, portanto um pouco menos movimentado. Detalhe para as placas comemorativas dos 40 anos da 'reunificação' de Jerusalém ao estado de Israel, como consequência da guerra dos seis dias. Várias outras placas também anunciavam a comemoração dos 60 anos do Estado de Israel fundado em 1948. Uma exposição bastante interessante no aeroporto ilustrava pôsteres com um tema anual comemorativo de cada aniversário do país de 1948 a 2008. Gostaria de ter tirado fotos de alguns deles, porém a quantidade de câmeras e forças de segurança no aeroporto realmente tiraram minha motivação.

A arquitetura de Jerusalém é muito interessante, com intensa utilizção de pedras de cor areia (comentário meio óbvio...). As muralhas da cidade foram construídas pelo império Otomano durante o século XVI e são de proporções incríveis. Existem duas trilhas que se pode seguir sobre a muralha em cada um dos lados da cidade, dois quais eu segui o que circunda o 'Armenian Quarter', em direção a Belém (Bethelem). A cidade velha é dividida em

quatro blocos, Armênio (Cristão Ortodoxo), Muçulmano, Judeu e Cristão. Ao redor do muro existem alguns sites de visitação interessantes, a uma distância próxima da cidade velha. O sobe-desce requer um bom grau de disposição, para aqueles que querem fazer todo o percorrido a pé. Existem muitos ônibus de excursão que levam pessoas mais idosas aos pontos de maior interesse. Nota: Depois de italianos e koreanos, a quantidade de brasileiros é bastante significativa, ou talvez seja porque a imensa maioria faz questão absoluta de utilizar as vestimentas discretas amarelo 'pakalolo' ou então enrolam-se em bandeiras como se estivessem na final de uma copa do mundo... A foto ao lado mostra a 'Citadel' onde encontra-se o museu da Cidade, altamente recomendado.
Começam aqui as descrições dos sítios religiosos da cidade, e é importante ressaltar que muitos deles somente foram "identificados" no século IV o que leva muitos a questionar a precisão dos mesmos. Porém, o que interessa é a fé, não é mesmo? :)
No caminho por cima do muro o primeiro ponto interessante é a Capela que marca o local onde a Virgem Maria viveu após a crucificação de Jesus Cristo e onde ela foi encontrada morta. A capela é

bastante simples (apesar da lojinha de indulgências ao lado ser bem arrumadinha) e no subsolo da mesma existe uma representação do corpo de Maria ao redor de diversas 'criptas' bastante pequenas representando algumas nações com representativas populações Cristãs, incluindo México, Brasil e Itália. Vale lembrar que esse lado da cidade é a parte Bizantina, que complementa os três demais setores da cidade: Católico, Judaico e Muçulmano.

Exatamente ao lado encontra-se o túmulo de David (primeiro rei dos Judeus), local extremamente importante para o Judaísmo, apesar de bastante simples e até mesmo 'desprotegido'. Algo interessante da cidade antiga em Jerusalém, é a inexistência da paranóia

ocidental com 'não toque', 'não tire fotos', etc. Obviamente os locais são sagrados, e não museus ou sítios de interesse histórico, e pode-se entrar na grande maioria dos locais, exceto nos dias sagrados de cada uma das religiões. Sexta para os muçulmanos, Sábado para os Judeus e Domingo para os Cristãos. Os corredores e portais da cidade nas áreas de acesso principalmente à mesquita (Dome of the Rock) e ao Muro das lamentações são bastante restritos e controlados por um mini-exército de cidadãos carregando Uzi's.

No caminho encontramos (estava com o Ashley, companheiro de trabalho) um cidadão árabe que começou a nos guiar pela cidade, obviamente com um interesse financeiro. Antes de deixar a coisa ficar cara, combinamos um valor justo de 90 Shekels (~30 dolares) por 2 horas. O NIS (New Israeli Shekel) é a moeda local em alusão ao Shekel que foi utilizado pelos rebeldes judeus n

os primeiros anos DC. Logo em frente está um cemitério que acabou se tornando popular devido a Oskar Schindler que ali está sepultado. Ao fundo do cemitério se pode avistar Bethlehem (Belém) onde está a igreja da natividade (que ficou pra próxima viagem, já que o tempo e a idéia de cruzar para o lado onde está a capital da autoridade palestina, não me animava muito).

Já dentro da cidade, em direção a parte Judaica, se passa por uma viela onde está um mercado de... difícil de definir o que eles vendem, varia

de coisas feitas de tecidos até garrafas de vidro com areia da terra santa, mais provável de ser areia de algum deserto na China :)
As camisetas são divertidas. Encontra-se desde brincadeiras inocentes como o 'Super Jew' e 'Don't worry be jewish' (ao lado), como algumas onde o símbolo da nike é usado sobre o logo "Uzi does it".... Se existe algo que não sente-se na terra santa é tolerância, porém esse tópico é delicado de mais para se publicar :)

Bem ao centro da cidade estão as ruínas romanas do que foi a 'Alia Capitolina', talvez a única cidade construída em Jerusalém em um período secular (pagão, na linguagem da intolerância). Após a expulsão do Rei Herodes (o mesmo de Mezada), roma destruiu o templo (os vestígios existentes estão no muro das lamentações) e instaurou uma cidade como entreposto comercial estratégico com o distante oriente.

Enfim chega-se ao muro das lamentações (Western Wall) que é o sítio mais sagrado do Judaísmo: vestígio do tempo de Jerusalém. O lugar é altamente 'militarizado'. Você se sente fazendo checkin em um aeroporto deixando o sapato na esteira, e passando por um scanner. Logo em frente ao muro existe uma caixa com 'Kippah's para quem quer colocá-los. A quantidade de papéis colocados no muro é impressionante, assim como a persistência e entusiasmo dos oradores. Evitei ficar muito tempo por ali observando....
Saindo da cidade antiga pelo portão diretamente anexo ao muro (Dung Gate), existe uma vista privilegiada de diversos pontos interessantes, includindo o local original de fundação de Jerusalém, um cemitério enorme onde encontram-se o túmulo do profetas Zacarias (pirâmide, e NÃO, o do lado não é do outro falecido do quarteto) e a mesquita Al Asqa (que fica exatamente dentro da área do templo judeu). Acredita-se que a 'arca da aliança' foi criada nesse local, e que ainda encontra-se ali.... O cemitério fica ao lado do monte das Oliveiras (mais adiante). A paisagem é impressionante e de tirar o fôlego....



No segundo dia de 'folga', aproveitei o sábado lá, onde praticamente nada que é relacionado ao judaísmo funciona, em função do dia sagrado. Pelo menos na cidade velha, os setores cristão e muçulmanos funcionam normalmente, enquanto praticamente todos os estabelecimentos Judeus fecham. Algumas coisas são 'anedóticas', devido a questão da proibição da realização de qualquer 'trabalho' nesse dia. Além de (quase) ninguém trabalhar nesse dia, exemplos peculiares se extendem como o elevador dos hotéis que tem o painel de controle desabilitado, de forma que você na pode apertar nenhum botão (=trabalho). A solução para o problema? O elevador nunca pára de subir e descer abrindo a porta em todos os andares.... Nice....
Comecei cedo, para evitar a multidão para a qual me alertaram, principalmente seguindo a 'Vida dolorosa', e para facilitar as coisas, em pró da eficiência, comecei a via pela última estação, que estava no caminho pelo qual entrei, afinal de contas, o final dessa história não é nenhuma surpresa :)
Os marcos da via dolorosa segue as ruas estreitas e tortuosas de Jerusalém, onde placas de identificação vão indicando cada um dos estágios da crucificação de Jesus Cristo. O caminho tem
que ser seguido com um mapa (especialmente para quem vai ao contrário das pessoas seguindo o mesmo), já que em alguns momen
tos as ruas são complicadas de seguir. Algumas coisas que chamaram minha atenção como o marco destruído na entreada da estação de número IV que fica exatamente ao lado de uma loja de tecidos muçulumana. Uma das coisas interessantes dessa cidade antiga é o
contraste entre o significado histórico/religioso dos locais e o mundanismo com o qual o mesmo é tratado pelos seus habitantes. Locais de importância muito menor em outras cidades do mundo estariam envolvidas em bo
lhas de ar... As inscrições nos três alfabetos também é algo curioso, especialmente para ocidentais que não possuem nenhum grau de exposição (ou imposição) a outros alfabetos, o que definitivamente não é o caso para todos os demais povos. Ao lado direito está o local onde acredita-se que Verônica limpou o rosto de c
risto. Nesse local há uma pedra onde as pessoas tocam (sabe-se lá qual a "razão"), porém não consegui focá-la dado a confusão em que se encontrava o local. Haviam grupos de excursão (primariamente Coreanos) subindo o caminho carregando cruzes de madeira
razoavelmente grandes. São os templários chegando ao extremo oriente... Outro ponto interessante do caminho são os estágios I e II onde acredita-se que se deu a 'traição' e julgamento. O local é um jardim murado ao lado de uma capela Franciscana com vestígios no
piso e paredes que datam do século II e III.
E quando se está quase quase entrando no clima histórico-religioso, o choque da realidade com um rapaz de mochila acompanhando um grupo de estudantes com um singelo rifle. Interessante é a naturalidade com a qual as pessoas encaram um civil armado.
Obviamente, o sítio mais visitado do caminho é o Santo Sepulcro, e apesar da visão secular do que vos escreve, não dá pra negar que a devoção das pessoas quando chegam a esse lugar é impressionante. Mais uma vez a simplicidade do acesso ao tempo é peculiar, situando-se ao lado de lojas de indulgências (diz a lenda que a terra que vende-se aí não é Terra Santa made in China) e uma placa modesta indicando o nome do lugar. Como cheguei aí
por volta das 8:30 da manhã, o local estava vazio.
O templo em si data do século IV e foi construído pelo Rei do Império Romano do Oriente (Constantin, também fundador de Constantinopla) ao lado de sua mãe (Helena) a quem se deve o registro e identificação dos locais cristãos sagrados em Jerusalém. Obviamente destruído e reconstruído diversas vezes, o mesmo parece conservar a arquitetura original do século

IV. Outra peculiaridade do edifício é a escada de madeira localizada na janela do centro que encontra-se nesse local desde 185X... Os pontos de maior concent

ração de pessoas são a pedra onde acredita-se que Jesus foi despido após a crucificação e a pedra onde o mesmo foi seluptado. A multidão de pessoas que se enfileiram para se ajoelhar e tocar a pedra através de um orifício situado debaixo de uma espécie de altar é enorme, e algumas pessoas praticamente desmaiam ou choram muito.
O templo está em condições bastante precárias em por todos os lados existem estruturas de metal sustentando as paredes e teto. Dentro da igreja existem capelas Ortodoxa Grega e Católicas Romana - será essa a razão pela qual parece que não há investimentos para reparar o lugar? Ou será que a idéia de simplicidade é realmente o objetivo que se deseja transmitir afim de obter consistência com a história?

Enfim, continuando em direção a saída da cidade velha, rumo ao monte das oliveiras, está a igreja onde acredita-se ser o local de n

ascimento da mãe de Jesus. A igreja está em bom estado de conservação e situa-se do lado de ruínas de igrejas bizantinas destuídas e utilizadas como fundações para construções mais recentes. A pedra abaixo com os desenhos acredita-se ser o local de nascimento de Maria.

Saindo-se pelo 'Lion's Gate' tem-se acesso ao Monte

das Oliveiras e sítios adjacentes. O primeiro é o templo, onde foi sepultada Maria, local de peregrinação bastante intenso, principalmente de Hindús (?).... A escadaria bastante escura leva a um templo onde

pessoas se enfileiram para entrar em uma cripta bem pequena onde uma pedra indica o local de sepultamento coberto de bilhetes, cartas, etc.

O local fica bastante próximo ao cemitério e jardim Gethsemane (que na verdade é o mesmo onde Maria está enterrada) e a igreja de todas as nações. No cent

ro da igreja encontra-se a pedra onde acredita-se sobre a qual Jesus realizou sua última oração. Outro local onde as pessoas choram e se comovem.

Por fim, sobe-se o monte das oliveiras em direção ao local onde, segundo a tradição Cristã, Jesus ascendeu, porém esse fato não foi registrado aqui, já que a igreja não estava aberta e o esperto aqui acabou andando além do que devia e se viu em um local bem pouco turístico com olhares não muito amigáveis. Bom saber que sob medo ainda recobramos a boa e velha forma e capacidade pulmonar :)
De cima do monte se tem a vista tradicional de Jerusalém com a mesquita ao fundo... Uma pena que não era possível chegar a mesquita no sábado, nos horários de oração, ou seja, quase todo o dia.