Sunday, May 11, 2008

Jerusalém

O post vai um pouco atrasado já que o trabalho não me tem deixado com muito tempo de sobra, mas enfim, aqui vai minha narrativa dos dias em que passei em Jerusalém. A cidade fica a menos de 1 hora do aeroporto Ben Gurion em Tel Aviv (cidade que infelizmente não tive oportunidade de conhecer) através de uma rodovia bem sinuosa. Jerusalém encontra-se em uma região montanhosa, portanto o clima é mais agradável do que nas demais partes do país.
A descrição desse post basicamente resume-se a um dia e meio que passei conhecendo a cidade, já que o restante da semana passei dentro do escritório da empresa. Utilizando o fuso-horário a favor (GMT+2) enquanto aqui é (GMT-5) me deram 7 horas de liberdade na sexta-feira onde não se trabalha de acordo com a cultura Judaica.
Pode-se entrar na cidade velha por diversos portões construídos em diversos séculos de acordo com o crescimento da antiga cidade de Jerusalém. O "Jeffa Gate"parece ser o mais acessível, pois encontra-se em uma avenida bem movimentada e do lado oposto aos templos Judaicos e Muçulmanos, portanto um pouco menos movimentado. Detalhe para as placas comemorativas dos 40 anos da 'reunificação' de Jerusalém ao estado de Israel, como consequência da guerra dos seis dias. Várias outras placas também anunciavam a comemoração dos 60 anos do Estado de Israel fundado em 1948. Uma exposição bastante interessante no aeroporto ilustrava pôsteres com um tema anual comemorativo de cada aniversário do país de 1948 a 2008. Gostaria de ter tirado fotos de alguns deles, porém a quantidade de câmeras e forças de segurança no aeroporto realmente tiraram minha motivação.
A arquitetura de Jerusalém é muito interessante, com intensa utilizção de pedras de cor areia (comentário meio óbvio...). As muralhas da cidade foram construídas pelo império Otomano durante o século XVI e são de proporções incríveis. Existem duas trilhas que se pode seguir sobre a muralha em cada um dos lados da cidade, dois quais eu segui o que circunda o 'Armenian Quarter', em direção a Belém (Bethelem). A cidade velha é dividida em quatro blocos, Armênio (Cristão Ortodoxo), Muçulmano, Judeu e Cristão. Ao redor do muro existem alguns sites de visitação interessantes, a uma distância próxima da cidade velha. O sobe-desce requer um bom grau de disposição, para aqueles que querem fazer todo o percorrido a pé. Existem muitos ônibus de excursão que levam pessoas mais idosas aos pontos de maior interesse. Nota: Depois de italianos e koreanos, a quantidade de brasileiros é bastante significativa, ou talvez seja porque a imensa maioria faz questão absoluta de utilizar as vestimentas discretas amarelo 'pakalolo' ou então enrolam-se em bandeiras como se estivessem na final de uma copa do mundo... A foto ao lado mostra a 'Citadel' onde encontra-se o museu da Cidade, altamente recomendado.
Começam aqui as descrições dos sítios religiosos da cidade, e é importante ressaltar que muitos deles somente foram "identificados" no século IV o que leva muitos a questionar a precisão dos mesmos. Porém, o que interessa é a fé, não é mesmo? :)

No caminho por cima do muro o primeiro ponto interessante é a Capela que marca o local onde a Virgem Maria viveu após a crucificação de Jesus Cristo e onde ela foi encontrada morta. A capela é bastante simples (apesar da lojinha de indulgências ao lado ser bem arrumadinha) e no subsolo da mesma existe uma representação do corpo de Maria ao redor de diversas 'criptas' bastante pequenas representando algumas nações com representativas populações Cristãs, incluindo México, Brasil e Itália. Vale lembrar que esse lado da cidade é a parte Bizantina, que complementa os três demais setores da cidade: Católico, Judaico e Muçulmano.



Exatamente ao lado encontra-se o túmulo de David (primeiro rei dos Judeus), local extremamente importante para o Judaísmo, apesar de bastante simples e até mesmo 'desprotegido'. Algo interessante da cidade antiga em Jerusalém, é a inexistência da paranóia ocidental com 'não toque', 'não tire fotos', etc. Obviamente os locais são sagrados, e não museus ou sítios de interesse histórico, e pode-se entrar na grande maioria dos locais, exceto nos dias sagrados de cada uma das religiões. Sexta para os muçulmanos, Sábado para os Judeus e Domingo para os Cristãos. Os corredores e portais da cidade nas áreas de acesso principalmente à mesquita (Dome of the Rock) e ao Muro das lamentações são bastante restritos e controlados por um mini-exército de cidadãos carregando Uzi's.
No caminho encontramos (estava com o Ashley, companheiro de trabalho) um cidadão árabe que começou a nos guiar pela cidade, obviamente com um interesse financeiro. Antes de deixar a coisa ficar cara, combinamos um valor justo de 90 Shekels (~30 dolares) por 2 horas. O NIS (New Israeli Shekel) é a moeda local em alusão ao Shekel que foi utilizado pelos rebeldes judeus nos primeiros anos DC. Logo em frente está um cemitério que acabou se tornando popular devido a Oskar Schindler que ali está sepultado. Ao fundo do cemitério se pode avistar Bethlehem (Belém) onde está a igreja da natividade (que ficou pra próxima viagem, já que o tempo e a idéia de cruzar para o lado onde está a capital da autoridade palestina, não me animava muito).


Já dentro da cidade, em direção a parte Judaica, se passa por uma viela onde está um mercado de... difícil de definir o que eles vendem, varia de coisas feitas de tecidos até garrafas de vidro com areia da terra santa, mais provável de ser areia de algum deserto na China :)
As camisetas são divertidas. Encontra-se desde brincadeiras inocentes como o 'Super Jew' e 'Don't worry be jewish' (ao lado), como algumas onde o símbolo da nike é usado sobre o logo "Uzi does it".... Se existe algo que não sente-se na terra santa é tolerância, porém esse tópico é delicado de mais para se publicar :)


Bem ao centro da cidade estão as ruínas romanas do que foi a 'Alia Capitolina', talvez a única cidade construída em Jerusalém em um período secular (pagão, na linguagem da intolerância). Após a expulsão do Rei Herodes (o mesmo de Mezada), roma destruiu o templo (os vestígios existentes estão no muro das lamentações) e instaurou uma cidade como entreposto comercial estratégico com o distante oriente.

Enfim chega-se ao muro das lamentações (Western Wall) que é o sítio mais sagrado do Judaísmo: vestígio do tempo de Jerusalém. O lugar é altamente 'militarizado'. Você se sente fazendo checkin em um aeroporto deixando o sapato na esteira, e passando por um scanner. Logo em frente ao muro existe uma caixa com 'Kippah's para quem quer colocá-los. A quantidade de papéis colocados no muro é impressionante, assim como a persistência e entusiasmo dos oradores. Evitei ficar muito tempo por ali observando....

Saindo da cidade antiga pelo portão diretamente anexo ao muro (Dung Gate), existe uma vista privilegiada de diversos pontos interessantes, includindo o local original de fundação de Jerusalém, um cemitério enorme onde encontram-se o túmulo do profetas Zacarias (pirâmide, e NÃO, o do lado não é do outro falecido do quarteto) e a mesquita Al Asqa (que fica exatamente dentro da área do templo judeu). Acredita-se que a 'arca da aliança' foi criada nesse local, e que ainda encontra-se ali.... O cemitério fica ao lado do monte das Oliveiras (mais adiante). A paisagem é impressionante e de tirar o fôlego....

No segundo dia de 'folga', aproveitei o sábado lá, onde praticamente nada que é relacionado ao judaísmo funciona, em função do dia sagrado. Pelo menos na cidade velha, os setores cristão e muçulmanos funcionam normalmente, enquanto praticamente todos os estabelecimentos Judeus fecham. Algumas coisas são 'anedóticas', devido a questão da proibição da realização de qualquer 'trabalho' nesse dia. Além de (quase) ninguém trabalhar nesse dia, exemplos peculiares se extendem como o elevador dos hotéis que tem o painel de controle desabilitado, de forma que você na pode apertar nenhum botão (=trabalho). A solução para o problema? O elevador nunca pára de subir e descer abrindo a porta em todos os andares.... Nice....

Comecei cedo, para evitar a multidão para a qual me alertaram, principalmente seguindo a 'Vida dolorosa', e para facilitar as coisas, em pró da eficiência, comecei a via pela última estação, que estava no caminho pelo qual entrei, afinal de contas, o final dessa história não é nenhuma surpresa :)

Os marcos da via dolorosa segue as ruas estreitas e tortuosas de Jerusalém, onde placas de identificação vão indicando cada um dos estágios da crucificação de Jesus Cristo. O caminho tem que ser seguido com um mapa (especialmente para quem vai ao contrário das pessoas seguindo o mesmo), já que em alguns momentos as ruas são complicadas de seguir. Algumas coisas que chamaram minha atenção como o marco destruído na entreada da estação de número IV que fica exatamente ao lado de uma loja de tecidos muçulumana. Uma das coisas interessantes dessa cidade antiga é o contraste entre o significado histórico/religioso dos locais e o mundanismo com o qual o mesmo é tratado pelos seus habitantes. Locais de importância muito menor em outras cidades do mundo estariam envolvidas em bolhas de ar... As inscrições nos três alfabetos também é algo curioso, especialmente para ocidentais que não possuem nenhum grau de exposição (ou imposição) a outros alfabetos, o que definitivamente não é o caso para todos os demais povos. Ao lado direito está o local onde acredita-se que Verônica limpou o rosto de cristo. Nesse local há uma pedra onde as pessoas tocam (sabe-se lá qual a "razão"), porém não consegui focá-la dado a confusão em que se encontrava o local. Haviam grupos de excursão (primariamente Coreanos) subindo o caminho carregando cruzes de madeira razoavelmente grandes. São os templários chegando ao extremo oriente... Outro ponto interessante do caminho são os estágios I e II onde acredita-se que se deu a 'traição' e julgamento. O local é um jardim murado ao lado de uma capela Franciscana com vestígios no piso e paredes que datam do século II e III.

E quando se está quase quase entrando no clima histórico-religioso, o choque da realidade com um rapaz de mochila acompanhando um grupo de estudantes com um singelo rifle. Interessante é a naturalidade com a qual as pessoas encaram um civil armado.



Obviamente, o sítio mais visitado do caminho é o Santo Sepulcro, e apesar da visão secular do que vos escreve, não dá pra negar que a devoção das pessoas quando chegam a esse lugar é impressionante. Mais uma vez a simplicidade do acesso ao tempo é peculiar, situando-se ao lado de lojas de indulgências (diz a lenda que a terra que vende-se aí não é Terra Santa made in China) e uma placa modesta indicando o nome do lugar. Como cheguei aí
por volta das 8:30 da manhã, o local estava vazio.

O templo em si data do século IV e foi construído pelo Rei do Império Romano do Oriente (Constantin, também fundador de Constantinopla) ao lado de sua mãe (Helena) a quem se deve o registro e identificação dos locais cristãos sagrados em Jerusalém. Obviamente destruído e reconstruído diversas vezes, o mesmo parece conservar a arquitetura original do século IV. Outra peculiaridade do edifício é a escada de madeira localizada na janela do centro que encontra-se nesse local desde 185X... Os pontos de maior concentração de pessoas são a pedra onde acredita-se que Jesus foi despido após a crucificação e a pedra onde o mesmo foi seluptado. A multidão de pessoas que se enfileiram para se ajoelhar e tocar a pedra através de um orifício situado debaixo de uma espécie de altar é enorme, e algumas pessoas praticamente desmaiam ou choram muito.
O templo está em condições bastante precárias em por todos os lados existem estruturas de metal sustentando as paredes e teto. Dentro da igreja existem capelas Ortodoxa Grega e Católicas Romana - será essa a razão pela qual parece que não há investimentos para reparar o lugar? Ou será que a idéia de simplicidade é realmente o objetivo que se deseja transmitir afim de obter consistência com a história?

Enfim, continuando em direção a saída da cidade velha, rumo ao monte das oliveiras, está a igreja onde acredita-se ser o local de nascimento da mãe de Jesus. A igreja está em bom estado de conservação e situa-se do lado de ruínas de igrejas bizantinas destuídas e utilizadas como fundações para construções mais recentes. A pedra abaixo com os desenhos acredita-se ser o local de nascimento de Maria.



Saindo-se pelo 'Lion's Gate' tem-se acesso ao Monte das Oliveiras e sítios adjacentes. O primeiro é o templo, onde foi sepultada Maria, local de peregrinação bastante intenso, principalmente de Hindús (?).... A escadaria bastante escura leva a um templo onde pessoas se enfileiram para entrar em uma cripta bem pequena onde uma pedra indica o local de sepultamento coberto de bilhetes, cartas, etc.



O local fica bastante próximo ao cemitério e jardim Gethsemane (que na verdade é o mesmo onde Maria está enterrada) e a igreja de todas as nações. No centro da igreja encontra-se a pedra onde acredita-se sobre a qual Jesus realizou sua última oração. Outro local onde as pessoas choram e se comovem.






Por fim, sobe-se o monte das oliveiras em direção ao local onde, segundo a tradição Cristã, Jesus ascendeu, porém esse fato não foi registrado aqui, já que a igreja não estava aberta e o esperto aqui acabou andando além do que devia e se viu em um local bem pouco turístico com olhares não muito amigáveis. Bom saber que sob medo ainda recobramos a boa e velha forma e capacidade pulmonar :)
De cima do monte se tem a vista tradicional de Jerusalém com a mesquita ao fundo... Uma pena que não era possível chegar a mesquita no sábado, nos horários de oração, ou seja, quase todo o dia.

Sunday, April 20, 2008

O Mar Morto, The Dead Sea ou Yām Ha-Melaḥ

Saindo de Jerusalém a viagem para o Kibutz Ein Gedi no Mar Morto fica a aproximadamente 1h30 de carro. O percurso é bem interessante, e a paisagem natural muda radicamente à partir do momento que se deixa Jerusalém e se inicia a descida em direção ao ponto mais baixo da Terra. Assim que se deixa Jerusalém, a rodovia (que se inicia do lado Palestino do muro que divide West Bank) é uma continua descida praticamente ininterrupta até que se chega às margens do Mar Morto. A foto ao lado mostra a sinalização logo na saída de Jerusalém. Alguns detalhes interessantes são: a) Sempre que existe uma rodovia que dá acesso ao lado Palestino, o número da mesma é exibida em vermelho (sugestivo?!?); b) Toda a sinalização é provida em Hebraico, Árabe e Inglês; visto que as duas primeiras línguas são oficiais em Israel.
A qualidade da rodovia é impressionante, porém não posso dizer o mesmo do Táxi... O cidadão além de meio mal humorado, dirigia um Skoda Octavia (Czech rules) que ficava todo o tempo apitando o painel de controle com mensagens sugestivas como: Fluido de freio baixo, Pastilhas de freio gastas, Airbag danificado, Temperatura do Motor elevada, etc, etc.... Com tudo isso, o cidadão ainda dirige o caminho todo praticamente como um maníaco a 140Km/h. Ainda bem que a Terra é Santa.
Nas margens da rodovia existem diversos 'acampamentos de beduínos', que mais se parecem com pequenas favelas (foto ao lado). O taxista sempre que via um grupinho de beduínos levando suas cabras pra cima e pra baixo comentava: "Arabs, beduins, they are Arabs..." Tolerância, não é algo muito comum na Terra Santa, mesmo.

A Fronteira leste de Israel é praticamente integral com a Jordânia, que parece ser relativamente pacífica em relação aos vizinhos do Norte. Todas as pontes de acesso a Jordânia (pelo menos umas 3 entre Jerusalém e o Mar Morto) se chamam Rei Hussein. Na estrada a cada 100 metros que se desce existe uma placa indicando o nível do mar. A descida de aproximadamente 1100 metros é bastante rápida e contínua. Deixa-se Jerusalém que fica por volta de 700 metros acima do nível do mar para 400 metros abaixo do nível do mar.

O Mar Morto é provavelmente um daqueles lugares únicos, extremamente recomendável em termos de experiência histórica e natural. Aparentemente formado pelo mesmo fenômeno que criou o Vale da Morte (Death Valley) nos EUA - um enorme terremoto que abriu um 'buraco' entre duas cadeias de montanhas - o mar morto é um reservatório desidual de água oceânica depositada durante o fim da última 'pequena' era Glacial. A extrema elevada concentração de sais reduz a possibilidade da existência de qualquer forma de vida. Ao lado foto tirada no 'spa' do Kibutz Ein Gedi com a composição da água. Abastecido por uma canalização do Rio Jordão, o Mar Morto não deságua ou abastece nenhum outro sistema, sendo que a única forma de dissipação da sua água é através da evaporação.


A primeira praia que paramos antes de chegar no Kibutz (Mineral Beach) tem um visual espetacular. O efeito que a água extremamente 'pesada' combinada com a baixa umidade relativa do ar apresenta é de um espelho com uma certa neblina muito diferente. A temperatura da água é bastante agradável, visto que o início de primavera no deserto não é insuportavelmente quente. O solo é completamente coberto por pedras que são envolvidas por camadas de sal (foto do centro abaixo). O senhor espertão aqui com seu modo turista ativado não levou chinelo e sofreu pouco com as pedras, especialemente com as de sal, bem afiadas.


A quantidade de Sal na água é impressionante, e obviamente eu não resisti a experimentar o sabor da danada, que não tem nenhuma semelhança com água cheia de sal de cozinha. O gosto criado pela concentração de minerais e horrível e chega a queimar a língua. Deixei a experiência de boiar para o próximo dia, já que precisava chegar no Kibutz ainda com luz do dia.


Cheguei ao Kibutz Ein Gedi onde passei a noite (150 NIS ou o equivalente a uns 45 dólares com direito a refeições e acesso ao 'Spa'). O Kibutz é muito bem conservado com um Jadim Botânico expondo árvores de diversos lugares áridos e semi-áridos. A noite eles levam os turistas para um tour pelo jardim que é iluminado de diferentes cores. Após do jantar (ah, como a comida fora do mundo de plástico é boa) servido em um restaurante buffet com diversas comidas típicas seguindo a tradição Kosher, uma boa noite de sono (sem laptop), mas com Blackberry. Apesar dos 150 emails recebidos entre as 21hs e as 6hs da manhã, foi possível uma noite de sono decente.

Na manhã seguinte, peguei o Ônibus que leva até o Spa (2kms para o Sul) às 8hs da manhã e às 8h15 estava eu pronto para finalmente caminhar sobre o Mar Morto :)


As montanhas (mais a seguir) tem umas tonalidades de cor muito especiais e o contraste com a água ali tão próxima faz o lugar muito único.


Cheguei ao Spa, agarrei uma toalha e fui (de tênis, ja que mané não leva chinelo) andando até a praia (uns 10 minutos) desde o Spa onde estavam as piscinas de águas termais e os lamaçais pra quem quer ficar mais jovem ou fazer tratamento de pele às custas da mãe natureza. O caminho
em direção a praia é muito bacana, e mais uma vez o contraste das montanhas com a água chama a atenção (além da pequena estação meteorológica no ponto mais baixo do mundo). Reparando nas marcas visíveis nas montanhas percebe-se o quanto a água recuou nos últimos anos. Aparentemente o nível da água chegou praticamente ao topo da cadeia de montanhas durante a formação do mar morto e desde então vem recuando. A drenagem de água do Rio Jordão para fins de irrigação e também a utilização de água do próprio Mar Morto para fins industriais vem causando a retração do mesmo à taxa de 1 metro por ano. A foto acima (direita) mostra curiosamente uma sinalização de local permitido para banho, apesar de não existir água. Segundo o salva-vidas, a água estava ali há alguns poucos anos. O mesmo vale para a plataforma de madeira ao lado da estação meteorológica que supostamente foi construída sobre a água.


A quantidade de sal acumulada na praia salta aos olhos (e também à sola dos pés). Toda a praia e o leito do mar é coberto por uma camada de sal bastante grossa que parece estar se intensificando pelo fato da retração do nível da água. E para matar a curiosidade de vocês, meus poderes bíblicos não foram confirmados, portanto não consegui caminhar sobre as águas, porém boiar ali é muito divertido. É possível (não estou de sacanagem) sentar na água com as pernas esticadas e flutuar. Sensação estranha, mas depois de um tempo divertida. Nadar é praticamente impossível pelo peso da água, e mesmo porque eu não arrisquei dar uma ralada naquela placa de sal, pois aí sim eu iria correr flutuando sobre as águas... até a Jordânia...


No final da plataforma de madeira está um marco do local mais baixo do lado Israelense do Mar Morto, a 416 metros abaixo do nível do mar, o que deve estar defasado visto que a praia está a uns 3 minutos de distância da placa. No início da plataforma existe uma série de tábuas (não são os 10 mandamentos) com uma explicação da história geológica da região e os efeitos das mudanças climáticas recentes (ou você acha que eu lembrava de tudo isso que escrevi da época do Cursinho?). Pelos relatos, em 25 anos a imensa maioria do leito deverá estar seco, porém o governo está planejando desviar água do Mediterrâneo para o Mar Morto a fim de revitalizá-lo... Mania que temos de brincar com a mãe natureza....


Voltando da praia, tomei uma ducha de águas termais, que realmente dá uma energizada, apesar da água ter cheiro de enxofre. Fora que você sai do mar ou do chuveiro termal fazendo até 'crack' de tanto sal que gruda no corpo. Peguei até um bronzeado, após o long Canadian winter. Às 10hs em ponto o taxista e sua super máquina me pegaram no Spa para me levar a 'Mezada', um dos pontos mais visitados de Israel, e que se não fosse pelo Michael Knight ter enchido tanto o saco, eu não teria ido...

Um lugar de significado especial para os Judeus, Mezada é uma fortaleza construída em uma montanha de frente ao Mar Morto, onde o rei Herodes se refugiou quando expulsos de Jerusalém durante a perseguição Romana. O visual do lugar é inacreditável, e o estado de conservação da fortaleza é memorável dados os 2000 anos de idade; sendo considerada a mais bem conservada relíquia vítima de um ataque Romano em todo o mundo.


A fortaleza é uma obra de arquitetura memorável com dois palácios, uma quantidade incrível de armazéns para comida e suprimentos além de cisternas gigantes para o armazenamento de água. Os judeus ficaram por anos nessa fortaleza até que os romanos construíram uma rampa do lado oposto ao mar e chegaram ao topo. A rampa é até hoje claramente visível (foto ao lado). Conta a história que quando os romanos chegaram ao topo, os locais haviam cometido suicídio em massa. Às noites de terça e quinta um show de luzes e fogos de articício pode ser presenciado do pé da montanha onde se encena a queda de Mezada.

A engenharia desenvolvida pelos locais em termos de estocagem de alimentos, retenção de água e proteção da fortaleza são descritas no local, e surpreendem, assim como a garota de uns 16-17 anos carregando um rifle enquanto acompanhava um grupo de estudantes em excursão. Chega-se ao topo da montanha de bondinho ou a pé pela snake trail que segue o mesmo caminho utilizado há 2000 anos para construção e transporte de suprimentos à fortaleza.

De volta ao nível do mar (morto), uma exposição de fotos sobre a guerra recente entre Líbano e Israel relata a experiência de um jornalista que defende os direitos de censura em termos de guerra em prol da segurança. É interessante, como a democracia e liberdade (não nos termos do nosso vizinho do Sul, onde liberdade é o direito de ir no Wal-Mart) possuem diferentes facentas em realidades com as quais não estamos acostumados, especialmente depois de 2 anos na terra onde nada de mau (ou seria somente "nada") podem tem acontecer. Algumas camisetas à venda expõem um humor um tanto agressivo para quem não está acostumado, como uma imagem de uma Metralhadora Uzi estilizada como o símbolo da Nike, com a frase: "Israel, Just do It"; e uma outra com uma lista de "povos que tentaram exterminar o povo Judeu", incluindo os antigos Impérios Romano e Egípicio (todos listados omo extintos) com o último na lista dizendo: Iran e um símbolo de interrogação no lugar da palavra extinto.


Retornado a Jerusalém, o senhor taxista resolveu abastecer o carro no setor Palestino (será que o combustível é mais barato ali, por questão de subsídios dos demais países árabes?) e tive a oportunidade de ver o muro dividindo os dois lados de Jerusalém. Na entrada para o lado de Israel cada veículo é inspecionado, e no meu caso me perguntaram origem e quando ia mostrar o document eles pediram para continuar. A diferença entre os dois lados é gritante: Do lado Israelita, a semelhança com a Europa é enorme; enquanto que do lado Palestino, a semelhança com os filmes e documentários sobre terrorismo e pobreza no Oriente Médio é de igual proporção...