A qualidade da rodovia é impressionante, porém não posso dizer o mesmo do Táxi... O cidadão além de meio mal humorado, dirigia um Skoda Octavia (Czech rules) que ficava todo o tempo apitando o painel de controle com mensagens sugestivas como: Fluido de freio baixo, Pastilhas de freio gastas, Airbag danificado, Temperatura do Motor elevada, etc, etc.... Com tudo isso, o cidadão ainda dirige o caminho todo praticamente como um maníaco a 140Km/h. Ainda bem que a Terra é Santa.

Nas margens da rodovia existem diversos 'acampamentos de beduínos', que mais se parecem com pequenas favelas (foto ao lado). O taxista sempre que via um grupinho de beduínos levando suas cabras pra cima e pra baixo comentava: "Arabs, beduins, they are Arabs..." Tolerância, não é algo muito comum na Terra Santa, mesmo.
A Fronteira leste de Israel é praticamente integral com a Jordânia, que parece ser relativamente pacífica em relação aos vizinhos do Norte. Todas as pontes de acesso a Jordânia (pelo menos umas 3 entre Jerusalém e o Mar Morto) se chamam Rei Hussein. Na estrada a cada 100 metros que se desce existe uma placa indicando o nível do mar. A descida de aproximadamente 1100 metros é bastante rápida e contínua. Deixa-se Jerusalém que fica por volta de 700 metros acima do nível do mar para 400 metros abaixo do nível do mar.

O Mar Morto é provavelmente um daqueles lugares únicos, extremamente recomendável em termos de experiência histórica e natural. Aparentemente formado pelo mesmo fenômeno que criou o Vale da Morte (Death Valley) nos EUA - um enorme terremoto que abriu um 'buraco' entre duas cadeias de montanhas - o mar morto é um reservatório desidual de água oceânica depositada durante o fim da última 'pequena' era Glacial. A extrema elevada concentração de sais reduz a possibilidade da existência de qualquer forma de vida. Ao lado foto tirada no 'spa' do Kibutz Ein Gedi com a composição da água. Abastecido por uma canalização do Rio Jordão, o Mar Morto não deságua ou abastece nenhum outro sistema, sendo que a única forma de dissipação da sua água é através da evaporação.

A primeira praia que paramos antes de chegar no Kibutz (Mineral Beach) tem um visual espetacular. O efeito que a água extremamente 'pesada' combinada com a baixa umidade relativa do ar apresenta é de um espelho com uma certa neblina muito diferente. A temperatura da água é bastante agradável, visto que o início de primavera no deserto não é insuportavelmente quente. O solo é completamente coberto por pedras que são envolvidas por camadas de sal (foto do centro abaixo). O senhor espertão aqui com seu modo turista ativado não levou chinelo e sofreu pouco com as pedras, especialemente com as de sal, bem afiadas.

A quantidade de Sal na água é impressionante, e obviamente eu não resisti a experimentar o sabor da danada, que não tem nenhuma semelhança com água cheia de sal de cozinha. O gosto criado pela concentração de minerais e horrível e chega a queimar a língua. Deixei a experiência de boiar para o próximo dia, já que precisava chegar no Kibutz ainda com luz do dia.

Cheguei ao Kibutz Ein Gedi onde passei a noite (150 NIS ou o equivalente a uns 45 dólares com direito a refeições e acesso ao 'Spa'). O Kibutz é muito bem conservado com um Jadim Botânico expond

o árvores de diversos lugares áridos e semi-áridos. A noite eles levam os turistas para um tour pelo jardim que é iluminado de diferentes cores. Após do jantar (ah, como a comida fora do mundo de plástico é boa) servido em um restaurante buffet com diversas comidas típicas seguindo a tradição Kosher, uma boa noite de sono (sem laptop), mas com Blackberry. Apesar dos 150 emails recebidos entre as 21hs e as 6hs da manhã, foi possível uma noite de sono decente.

Na manhã seguinte, peguei o Ônibus que leva até o Spa (2kms para o Sul) às 8hs da manhã e às 8h15 estava eu pronto para finalmente caminhar sobre o Mar Morto :)
As montanhas (mais a seguir) tem umas tonalidades de cor muito especiais e o contraste com a água ali tão próxima faz o lugar muito único.
Cheguei ao Spa, agarrei uma toalha e fui (de tênis, ja que mané não leva chinelo) andando até a praia (uns 10 minutos) desde o Spa onde estavam as piscinas de águas termais e os lamaçais pra quem quer ficar mais jovem ou fazer tratamento de pele às custas da mãe natureza. O caminho



em direção a praia é muito bacana, e mais uma vez o contraste das montanhas com a água chama a atenção (além da pequena estação meteorológica no ponto mais baixo do mundo). Reparando nas marcas visíveis nas montanhas percebe-se o quanto a água recuou nos últimos anos. Aparentemente o nível da água chegou praticamente ao topo da cadeia de montanhas durante a formação do mar morto e desde então vem recuando. A drenagem de água do Rio Jordão para fins de irrigação e também a utilização de água do próprio Mar Morto para fins industriais vem causando a retração do mesmo à taxa de 1 metro por ano. A foto acima (direita) mostra curiosamente uma sinalização de local permitido para banho, apesar de não existir água. Segundo o salva-vidas, a água estava ali há alguns poucos anos. O mesmo vale para a plataforma de madeira ao lado da estação meteorológica que supostamente foi construída sobre a água.

A quantidade de sal acumulada na praia salta aos olhos (e também à sola dos pés). Toda a praia e o leito do mar é coberto por uma camada de sal bastante grossa que parece estar se intensificando pelo fato da retração do nível da água. E para matar a curiosidade de vocês, meus poderes bíblicos não foram confirmados, portanto não consegui caminhar sobre as águas, porém boiar ali é muito divertido. É possível (não estou de sacanagem) sentar na água com as pernas esticadas e flutuar. Sensação estranha, mas depois de um tempo divertida. Nadar é praticamente impossível pelo peso da água, e mesmo porque eu não arrisquei dar uma ralada naquela placa de sal, pois aí sim eu iria correr flutuando sobre as águas... até a Jordânia...

No final da plataforma de madeira está um marco do local mais baixo do lado Israelense do Mar Morto, a 416 metros abaixo do nível do mar, o que deve estar defasado visto que a praia está a uns 3 minutos de distância da placa. No início da plataforma existe uma série de tábuas (não são os 10 mandamentos) com uma

explicação da história geológica da região e os efeitos das mudanças climáticas recentes (ou você acha que eu lembrava de tudo isso que escrevi da época do Cursinho?). Pelos relatos, em 25 anos a imensa maioria do leito deverá estar seco, porém o governo está planejando desviar água do Mediterrâneo para o Mar Morto a fim de revitalizá-lo... Mania que temos de brincar com a mãe natureza....
Voltando da praia, tomei uma ducha de águas termais, que realmente dá uma energizada, apesar da água ter cheiro de enxofre. Fora que você sai do mar ou do chuveiro termal fazendo até 'crack' de tanto sal que gruda no corpo. Peguei até um bronzeado, após o long Canadian winter. Às 10hs em ponto o taxista e sua super máquina me pegaram no Spa para me levar a 'Mezada', um dos pontos mais visitados de Israel, e que se não fosse pelo Michael Knight ter enchido tanto o saco, eu não teria ido...

Um lugar de significado especial para os Judeus, Mezada é uma fortaleza construída em uma montanha de frente ao Mar Morto, onde o rei Herodes se refugiou quando expulsos de Jerusalém durante a perseguição Romana. O visual do lugar é inacreditável, e o estado de conservação da fortaleza é memorável dados os 2000 anos de idade; sendo considerada a mais bem conservada relíquia vítima de um ataque Romano em todo o mundo.

A fortaleza é uma obra de arquitetura memorável com dois palácios, uma quantidade incrível de armazéns para comida e suprimentos além de cisternas gigantes para o armazenamento de água. Os judeus ficaram por anos nessa fortaleza até que os romanos construíram uma rampa do lado oposto ao mar e chegaram ao topo. A rampa é até hoje claramente visível (foto ao lado). Conta a história que quando os romanos chegaram ao topo, os locais haviam cometido suicídio em massa. Às noites de terça e quinta um show de luzes e fogos de articício pode ser presenciado do pé da montanha onde se encena a queda de Mezada.


A engenharia desenvolvida pelos locais em termos de estocagem de alimentos, retenção de água e proteção da fortaleza são descritas no local, e surpreendem, assim como a garota de uns 16-17 anos carregando um rifle enquanto acompanhava um grupo de estudantes em excursão. Chega-se ao topo da montanha de bondinho ou a pé pela snake trail que segue o mesmo caminho utilizado há 2000 anos para construção e transporte de suprimentos à fortaleza.
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